Pular para o conteúdo

Eleições presidenciais nos EUA: riscos para empresas portuguesas exportadoras

Mulher em terno escrevendo sobre um mapa com pequenas bandeiras de Portugal e EUA na mesa em escritório portuário.

Este ano veio acompanhado de várias alterações no cenário político que tiveram reflexos nas empresas portuguesas, começando pelas eleições legislativas de março. Agora, a dois meses do fim do ano, a atenção desloca-se para as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América (EUA).

Nas próximas horas, o mundo vai descobrir quem ficará à frente de uma das maiores potências globais: Donald Trump ou Kamala Harris. Com a campanha eleitoral americana marcada por propostas protecionistas de ambos os candidatos, as empresas exportadoras acompanham o resultado com um nível de expectativa sem precedentes.

Portugal, que fabrica uma ampla gama de componentes para a indústria automóvel - de painéis de instrumentos a caixas de velocidades - tem empresas norte-americanas entre os seus principais clientes.

Peças que valem milhões a Portugal

A relevância da indústria de componentes na balança comercial portuguesa é particularmente elevada. Entre janeiro e agosto deste ano, o setor foi responsável por mais de 14,6% do total das exportações nacionais.

Em 2023, os EUA ocuparam a quarta posição entre os destinos destes produtos, absorvendo 5% do total de componentes produzidos em Portugal para a indústria automóvel. Trata-se de um mercado em expansão: as vendas cresceram 12% de janeiro a agosto de 2024, enquanto as exportações de componentes para a Europa registaram queda.

O que está em jogo?

De um lado está Donald Trump. Durante a campanha, o republicano afirmou que pretende elevar de forma significativa as tarifas de importação, defendendo a aplicação de uma tarifa universal entre 10% e 20% sobre todos os produtos importados.

Se isso se confirmar, abre-se a possibilidade de uma guerra comercial com a União Europeia (UE), que já sinalizou ter prontas medidas de retaliação.

Do outro lado está Kamala Harris. A democrata, ainda que proponha um cenário de continuidade - incluindo a manutenção da política de subsídios do Inflation Reduction Act (IRA) - também sustenta regras ambientais mais duras, com regulamentações e padrões de sustentabilidade mais exigentes. Na prática, isso pode gerar custos adicionais para empresas portuguesas, que terão de se ajustar com rapidez para cumprir novas exigências de conformidade.

Em declarações ao ECO, o diretor-geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), Rafael Alves Rocha, afirma acreditar que a linha política de Harris envolve menor risco de agravamento das tensões comerciais entre os EUA e a Europa.

Ainda assim, ele ressalta que há distância entre promessas eleitorais e decisões efetivas. As políticas económicas americanas, independentemente do partido, costumam seguir um “fio condutor”. Como exemplos, cita-se o IRA e os conflitos na Organização Mundial do Comércio (OMC), que se mantiveram presentes ao longo de diferentes administrações.

O impacto nas exportações

De acordo com o INE (Instituto Nacional de Estatística), os EUA foram, no ano passado, o quarto maior destino das exportações de bens portugueses, com uma participação de 6,8%. É uma fatia que vem crescendo nos últimos quatro anos.

Entre os principais produtos exportados estão: produtos químicos (26,7%), combustíveis minerais (17,9%), máquinas e aparelhos (10,2%), plásticos e borracha (7,2%) e metais comuns (6,2%). A indústria química foi a maior contribuinte, gerando cerca de 1,4 mil milhões de euros.

O investimento direto de Portugal nos EUA somou mais de 1,5 mil milhões de euros em 2023, enquanto o investimento americano em Portugal avançou 25%. Os EUA estão entre os maiores investidores estrangeiros em Portugal, com destaque para o setor automóvel.

Por isso, estas eleições podem significar um aumento dos riscos para a atuação das empresas portuguesas no mercado norte-americano.

O impacto no setor automóvel

Em 2023, os EUA foram o quarto maior comprador de componentes automóveis portugueses, ao mesmo tempo que as vendas para o mercado europeu recuaram.

José Couto, presidente da AFIA (Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel), destaca ao ECO que ambos os candidatos defendem posturas protecionistas, mais marcantes no caso de Trump. Segundo ele, esse contexto pode levar empresas portuguesas a transferirem operações para os EUA, buscando reduzir custos de transporte e, com isso, elevar a competitividade.

Outros ramos, como o corticeiro e o químico, também podem enfrentar desafios relevantes num cenário de protecionismo no pós-eleições, já que dependem de forma significativa das exportações para os EUA.

Fonte: ECO

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário